
MAAR – margens ressoantes
Aracaju não é apenas uma cidade geográfica, é um ensaio sobre o limite. Situada na fricção entre o avanço do asfalto e a insistência do lodo, ela personifica o espaço onde terra e água negociam uma existência mútua. Na MAAR MARGENS RESSONATES – Mostra de música experimental acusmática e poéticas do som, partimos da premissa de que vivemos em um tempo de limiares exauridos. Nossas fronteiras climáticas, sociais, tecnológicas e políticas tornaram-se membranas frágeis, linhas de fratura que revelam a vulnerabilidade do mundo, mas também a sua potência de reconstrução e invenção.
O Limiar como Abertura
Para esta curadoria, o limiar nunca é um lugar estático. Ele é, simultaneamente, um ponto de ruptura e uma abertura potencial — um território movediço onde materiais, ideias e corpos se encontram para a mútua transformação. Habitar essas zonas instáveis exige uma nova acustemologia: uma escuta que não busca a segurança do solo firme, mas que aprende a navegar na fluidez do entre-lugar, das interzonas.
Ao explorarmos a fragilidade desses limites, renunciamos à ilusão da estabilidade. Nesta programação, a fragilidade não é lida como fraqueza e sim como a força radical de (re)inventar espaços de ressonância em meio à crise. É nas frestas — no desgaste da matéria, no silêncio que precede a tempestade, na ausência que ressoa — que encontramos as nossas forças criativas mais vitais.
A Escuta das Zonas de Fricção
Explorar o som no Antropoceno — ou sob a “Intrusão de Gaia”, como propõe Isabelle Stengers — exige reconhecer o valor do cuidado e da mutação. Em Aracaju, a fratura é audível: o grito dos manguezais sufocados e o ruído invasivo das máquinas disputam o ar com a biofonia estuarina. A música exploratória que propomos habita exatamente essa intersecção. Ela não tenta resolver a tensão, mas sim torná-la audível, transformando a crise em um campo de atenção profunda.
Inspirados pela organização do comum dos povos Kīsêdjê, entendemos que a performance sonora é o rito que mantém os limiares abertos. O som é a ferramenta política que redefine a “partilha do sensível”, permitindo que vozes não-humanas e ruídos marginalizados ocupem o centro da escuta.
Ressonância e Mutação
A MAAR 2026 convida o público a um posicionamento ético: aceitar o lugar do intermediário. Aqui, a obra de arte é um testemunho da capacidade humana de gerar euforia a partir da precariedade. Como os ritos de passagem que marcam a transição entre estados de ser, esta Mostra utiliza a acusmática para nos conduzir através do limiar entre o que fomos e o que ousemos vir a ser.Em um mundo de fraturas, a ressonância é o que nos permite habitar o limite sem desmoronar. Sejam bem-vindos à zona de fricção.
QUEM FAZ A MAAR MARGENS RESSONANTES?
- Dudu Prudente – direção geral e curadoria
- Gilberto Monte – direção geral e curadoria
- Ana Marinho – produção executiva
- Carol Angelo – produção
- Sérgio Campos – iluminação
- Guilherme Werneck – direção de comunicação
- Samia Jacintho (Casa Rex) – design
- Gabrielle Lima – gestão de redes sociais
- Sarah Lima – gestão de redes sociais
- Djina Torres – assessoria de imprensa
contato
infos: contact@maar-mus.org